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Por Leo Brely
— Levem-me ao seu líder. – o baixinho vestindo gabardine, óculos com aro de tartaruga pendurado na ponta do nariz e fala ligeiramente fanha era de fazer gargalhar. Saiu de um fusca 69, caindo aos pedaços interpelando alguns transeuntes.
— Volte para o hospício de onde você saiu! - gritou alguém. O baixinho fez um ar de quem não entendeu, aproximou-se de uma senhora que carregava pacotes de supermercado, tentou segurá-la pelo braço quando os pacotes caíram na calçada. A senhora começou a gritar: Ladrão! Ladrão! Logo apareceu um policial militar e imobilizou o baixinho. Levou-o à delegacia mais próxima e registrou a ocorrência enquanto a figura patética esperava sentada em um banco de madeira. Após duas horas o delegado de plantão mandou chamá-lo para interrogatório. Assim que entrou na sala do delegado este perguntou:
— Então, o que o senhor aprontou, senhor...
— Sou Amistoso da Boa Paz, Paz por parte de pai e Boa por parte de mãe. Mais um louco – pensou o delegado – vou fazer o jogo dele só para ver até onde ele quer chegar, afinal o trabalho aqui hoje está um tédio.
— Então senhor Amistoso, porque foi preso?
— Não faço a mínima ideia, eu apenas estava inquerindo de seus semelhantes sobre o vosso líder, seria o senhor?
— Bem, de certa forma sim, sou. O que deseja de mim?
— Sou embaixador do planeta Simples e estou na Terra em missão diplomática, para troca de conteúdos culturais e principalmente econômicos. Nossa civilização atingiu um grau de desenvolvimento deveras muito superior ao seu. Sem querer ser arrogante, achamos que seu modo de produção e distribuição é obsoleto e usurário. Há anos monitoramos seu planeta através de uma avançada tecnologia e constatamos que vocês precisam de ajuda urgente. Veja bem, a economia de uma sociedade é a base, o alicerce de todo o modo de relacionamento entre os indivíduos desta sociedade. Problemas como fome, violência, distúrbios climáticos entre outros estão diretamente relacionados com a economia. Deter os meios de produção e explorar o produto é completamente deselegante, brutal e por que não dizer animalesco, por parte de quem o faz. Em Simples, produzimos o que consumimos com energia limpa, provinda de nossos sóis, não usamos moeda, todos têm direito de uso e consumo gratuito desde de que trabalhe, não há propriedades privadas, mas ocupação de propriedades conforme a necessidade e bom uso de cada família. As vocações profissionais são levadas muito em conta, valorizamos o indivíduo para o bem do grupo.
— Ah, é, espertinho, e o que fazem com os desordeiros, os vagabundos e assassinos?
— Absolutamente nada, pois estes não existem em Simples. Há cerca de mil e duzentos anos nossa sociedade atingiu um limite de violência parecido com o de vocês. Chegamos a implodir, socialmente falando, foi quando nos demos conta de nossa estupidez. Surgiu um homem, um ancião, chamava-se Ira. Ira começou em meio ao caos a pregar a tolerância e cooperação. A nossa humanidade já andava farta de loucura a essas alturas dos acontecimentos, começaram a dar ouvidos e razão ao Ira. Ele demonstrava como extravasar sentimentos e emoções animalescas através da arte, da expressão corporal. Criou o que vocês chamam de esportes e incentivou que todo o homem que estivesse sentindo raiva, corresse até a exaustão. Assim começou Ira a ganhar credibilidade e a sociedade aos poucos foi se estabilizando e evoluindo. Temos um monumento em homenagem ao valoroso Ira.
Nesse ponto o delegado estava boquiaberto mas arriscou uma pergunta fazendo ar de deboche.
— E qual era o nome completo desse tal de Ira?
— Ira Contida e Sublimada. Contida por parte de mãe e Sublimada por parte de pai – respondeu o baixinho. O delegado soltou uma gargalhada estridente quando adentrou o escrivão.
— Temos um 171 para investigar, doutor.
— Está bem, Silva, deixa só eu me livrar do senhor embaixador Amistoso aqui.
— Mas me diga Amistoso, você espera que alguém acredite em uma só palavra do que acabou de me dizer? Essa utopia é muito bonitinha mas não vale um vintém furado para quem não é lunático como você.
— Perdão, grande líder, não sou lunático, aliás o senhor não sabe que a lua não é habitada?
— Ora, vá para casa e considere-se feliz por eu não prendê-lo. Tenho mais o que fazer do que dar trela para louco. Vamos logo, saia!
— Bem, eu tentei, não sou mesmo muito persuasivo. Acho até que sou ingênuo, considerando o que vocês fizeram com o último sábio terráqueo que tentou avisá-los. Mas insisto em alertá-los que vossa sociedade implodirá qualquer dia. Adeus.
— Amistoso saiu cabisbaixo da delegacia, caminhou até seu fusca, embarcou, ligou a ignição, deu partida sem um único ruído e diante de um grupo de pessoas assombradas alçou voo e sumiu no horizonte.
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